Sibela e Digoo: a nova criação de Tânia Carvalho para a DcD
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Sibela e Digoo: a nova criação de Tânia Carvalho para a DcD
Foi aos poucos que Tânia Carvalho se deu a conhecer nesta entrevista, como artista, mas sobretudo como alma sensível. Mais conhecida como coreógrafa, com mais de duas décadas de criação, o seu universo artístico expressa-se em diferentes linguagens: música, desenho e cinema.
A conversa decorreu no Estúdio da Dançando com a Diferença, no Funchal, a propósito da residência artística do espetáculo Sibela e Digoo, com estreia absoluta no dia 21 de janeiro, no âmbito da 14.ª Edição da Mostra de Dança NANT – New Age, New Time, a decorrer em Viseu, no Teatro Viriato.
A comunicação de Tânia Carvalho oscila entre reserva e delicadeza, mas o olhar sorridente está sempre presente. Nascida em Viana do Castelo em 1976, a artista confidenciou-nos que nunca se sentiu indecisa sobre o seu caminho. Afinal de contas, sempre soube que ia trabalhar com Artes.
"Nunca pensei em ser outra coisa que não artista, desde pequena. Não sabia qual seria a disciplina, mas isso não era importante", diz-nos, entre risos.
Tânia Carvalho cresceu numa casa preenchida com instrumentos e começou a dançar ballet aos cinco anos. "Em casa cantava muito com as minhas irmãs e experimentei vários instrumentos", uma paixão que herdou do seu pai, que também tocava. A sua infância foi, assim, dominada pela música, nomeadamente pelo piano, pelo erhu (violino chinês) e pelo canto. Chegou a subir ao palco com apenas quatro anos para cantar. "Curiosamente afastei-me da música e profissionalmente fui primeiro para Artes Plásticas e para a Dança".
Não obstante, é com um brilho no olhar que afirma sem rodeios que é na música que mais se sente "conectada" artisticamente.
"Hoje canto em algumas peças, uso a voz gravada, componho e partilho algumas versões de músicas tradicionais na Internet", afirma.
Não tem dúvidas do porquê de não ter trilhado o caminho da música. "Cantar é o que mais me expõe. Quando canto com muita intensidade, no final fico com uma sensação estranha. Não é um vazio negativo, é como se tivesse espalhado toda a energia. Talvez por isso tenha tido algum receio de ir logo por esse caminho".
Na música, destacam-se os projetos Madmud, Idiolecto e duploc barulin. Em 2018 realizou o seu primeiro filme, Um Saco e uma Pedra – peça de dança para ecrã. Em 2021, fundou com o músico e performer Matthieu Ehrlacher o duo Papillons d’éternité, com o qual criou e apresentou Pieris Napi, Greta Oto, Lyropteryx Appollonia e Nymphalis Antiopa.
Para além das suas criações de produção própria, apresentadas em diversos teatros e festivais nacionais e internacionais, tem colaborado com companhias como o Ballet de l’Opéra de Lyon, a Company of Elders (Londres), a Companhia Nacional de Bailado, a Companhia Paulo Ribeiro, a Companhia de Ballet do Norte, a Dançando com a Diferença, o Ballet National de Marseille, a Tanzmainz e a ZfinMalta Dance Company, entre outras.
Enquanto coreógrafa, conta-nos que é apaixonada pelo movimento. “O que me interessa é perceber o que o movimento está a dizer, o seu desenho e a sua energia. A forma é importante, mas não é só a forma: é a energia com que essa forma é vivida".
No trabalho com a Dançando com a Diferença destaca a "constante aprendizagem". "É sempre uma experiência muito boa. Estou constantemente a aprender com eles e gosto muito de explorar o que pode surgir desse encontro. Isso acontece noutros contextos também, mas aqui há algo muito particular", salienta. Mas além disso, enaltece a "intensidade muito especial" do elenco. "São artistas que, na sua maioria, não passaram por uma escola de dança tradicional. Cada um tem características muito próprias, e é difícil explicar porque são muitos e muito diversos", desvenda a artista.
Com a Dançando com a Diferença, procura trabalhar coordenação, alongamento, mas é apaixonada pelo processo. "Descobrir o que têm e eu não", conta-nos. Tânia Carvalho já tinha criado para a companhia o espetáculo Doesdicon, em 2017. Desta vez, criou dois solos, um para Isabel Teixeira e outro para Diogo Freitas. "Gosto muito de trabalhar com elenco, mas nunca tinha trabalhado desta forma, individualmente, tem sido muito interessante".
Sobre a criatividade, a artista observa que "todas as pessoas são criativas em tudo o que fazem. Profissionalmente podemos dedicar-nos mais a uma área, mas criativamente podemos explorar muitas disciplinas. No meu caso, onde sinto uma ligação mais profunda com o meu interior — com a alma, se quisermos chamar assim — é na música. Principalmente a cantar. É quando me sinto mais conectada comigo própria".
Foi distinguida com o Prémio Jovens Criadores 2000, com Inicialmente Previsto (1999), e por duas vezes com o Prémio de Melhor Coreografia pela Sociedade Portuguesa de Autores, com Icosahedron (2012) e onironauta (2021). Em 2018, foi-lhe dedicado em Lisboa um ciclo especial, que apresentou várias das suas obras. Mais tarde, no âmbito da Temporada Cruzada Portugal-França 2022, o Théâtre de la Ville, em Paris, dedicou-lhe igualmente um programa especial, apresentando diferentes criações ao longo do ano.
Em 2019, recebeu o título de Cidadã de Mérito pela Câmara Municipal de Viana do Castelo e, em 2023, foi condecorada pelo Ministério da Cultura de França com as insígnias de Chevalier de L’ordre des Arts et des Lettres, em reconhecimento do seu contributo para o enriquecimento cultural.
Por fim, volta a sublinhar a profundidade do elenco da Dançando com a Diferença. "Para conseguir essa intensidade, preciso de ir buscar coisas muito profundas. Eles já têm isso naturalmente". Essa intensidade está na base dos solos que criou para Isabel Teixeira e Diogo Freitas.
A artista procura sempre o inesperado, aquilo que cada intérprete traz para além do que foi pedido, porque é aí que acontece o verdadeiro encontro entre quem dirige e quem interpreta. "Quando peço algo, interessa-me ver como cada intérprete interpreta aquilo que eu digo. O que surge vai sempre além da indicação inicial. Se fosse para fazer exatamente como eu faço, não acrescentaria nada".
Depois do espetáculo de estreia, no dia 21 às 21h, no Teatro Viriato, o espetáculo Sibela e Digoo segue para Leiria, onde será apresentado no dia 23, às 21h30, no Teatro José Lúcio da Silva. Em julho, o espetáculo sobe ao palco no dia 24, no Teatro Garcia de Resende, em Évora.
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- [ESTREIA] Sessão de 21/01 às 21h00, no Teatro Viriato, Viseu - 14.ª Mostra de Dança NANT
- Sessão 23/01, às 21h30, no Teatro José Lúcio da Silva, Leiria
A Companhia Dançando com a Diferença é uma estrutura financiada pela República Portuguesa - XXIII Governo / Direção-Geral das Artes (2023 - 2026), Governo Regional da Madeira através da: Direção Regional de Educação da Madeira, Direção Regional da Cultura e Câmara Municipal do Funchal. É companhia residente no MUDAS. Museu de Arte Contemporânea da Madeira.